Nos últimos anos, dois instrumentos ganharam destaque ni Brasil na avaliação do ambiente psicossocial de trabalho: o HSE Indicator Tool (HSE-IT), desenvolvido pela Health and Safety Executive (HSE) do Reino Unido, e o COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire), criado pelo National Research Centre for the Working Environment (NRCWE) da Dinamarca.
Ambos possuem sólida fundamentação científica e representam importantes ferramentas para compreender como a organização do trabalho influencia a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores. Contudo, apesar de possuírem objetivos semelhantes, foram concebidos com enfoques bastante distintos, o que influencia diretamente sua capacidade diagnóstica e sua aplicabilidade na gestão dos fatores de riscos psicossociais.
Com a entrada em vigor da obrigatoriedade de gerenciamento desses fatores pela NR-1, essa diferença passa a ter grande relevância prática.
Duas filosofias diferentes
O HSE Indicator Tool foi desenvolvido como parte do programa britânico Management Standards, cujo objetivo principal é identificar condições organizacionais associadas ao estresse relacionado ao trabalho.
Sua estrutura é baseada em apenas seis grandes domínios:
- Demandas;
- Controle;
- Apoio;
- Relacionamentos;
- Função;
- Mudanças.
Cada domínio representa um conjunto amplo de fatores organizacionais capazes de influenciar o estresse ocupacional.
Já o COPSOQ segue uma filosofia distinta.
Em vez de consolidar diversos fatores em poucos indicadores gerais, o instrumento procura avaliar cada fator psicossocial separadamente, permitindo uma compreensão muito mais detalhada da realidade organizacional.
Nas versões COPSOQ II Internacional e COPSOQ III Internacional, tanto nas versões média quanto curta, são avaliadas dezenas de dimensões específicas relacionadas ao ambiente psicossocial de trabalho.
Essa diferença estrutural é justamente o principal ponto de distinção entre os dois instrumentos.
O risco dos indicadores muito amplos
A utilização de poucos domínios possui a vantagem de simplificar a apresentação dos resultados.
Entretanto, essa simplificação pode reduzir significativamente a capacidade diagnóstica da avaliação.
Um exemplo evidente ocorre no domínio Relacionamentos, do HSE Indicator Tool.
Esse domínio reúne diferentes aspectos relacionados às relações interpessoais no trabalho.
É verdade que fenômenos como assédio moral, assédio sexual, discriminação, violência, ameaças, conflitos interpessoais ou problemas de comunicação podem influenciar negativamente as respostas relacionadas a esse domínio.
Contudo, esses fatores não são avaliados diretamente.
Como consequência, a organização identifica que existe um problema relacionado aos “Relacionamentos”, mas não consegue determinar, com precisão, qual fenômeno está produzindo aquele resultado.
Na prática, situações completamente diferentes podem gerar escores semelhantes.
Uma redução no indicador de “Relacionamentos” pode decorrer de:
- assédio moral;
- assédio sexual;
- discriminação;
- violência;
- conflitos entre colegas;
- falhas de liderança;
- deficiência na comunicação;
- ausência de apoio social.
Cada uma dessas situações exige estratégias preventivas distintas. Quando todas são consolidadas em um único indicador, a definição das medidas corretivas torna-se menos precisa.
Quando a média esconde o problema
Outro aspecto que merece atenção é a consolidação de fatores distintos dentro de um mesmo domínio.
Imagine um setor em que os trabalhadores apresentem:
- baixas demandas quantitativas;
- elevadas demandas emocionais.
Ao reunir esses fatores em um único indicador denominado Demandas, o resultado médio poderá indicar um nível de risco apenas moderado.
Entretanto, a elevada exposição às demandas emocionais permanecerá parcialmente ocultada pela baixa carga quantitativa.
O mesmo pode ocorrer em outros domínios do HSE Indicator Tool.
Essa consolidação reduz a sensibilidade da avaliação, dificulta a identificação dos fatores predominantes e pode levar a planos de ação menos direcionados.
A proposta do COPSOQ
O COPSOQ adota exatamente a estratégia oposta.
Em vez de trabalhar com indicadores amplos, avalia separadamente cada dimensão relevante do ambiente psicossocial.
Por exemplo, o instrumento distingue:
Demandas
- Demandas quantitativas;
- Ritmo de trabalho;
- Demandas cognitivas;
- Demandas emocionais.
Organização do trabalho
- Influência no trabalho;
- Possibilidades de desenvolvimento;
- Significado do trabalho;
- Clareza de função;
- Previsibilidade.
Liderança e relações sociais
- Qualidade da liderança;
- Apoio social;
- Reconhecimento;
- Justiça organizacional;
- Confiança.
Além disso, o COPSOQ contempla dimensões específicas para:
- assédio moral;
- assédio sexual;
- violência física;
- ameaças de violência.
Essa estrutura permite identificar exatamente qual fator psicossocial necessita de intervenção, aumentando significativamente a precisão do diagnóstico.
A evolução científica confirma essa tendência
A própria evolução dos instrumentos internacionais demonstra que a tendência não é reduzir o número de fatores avaliados, mas ampliar sua especificidade.
O COPSOQ III incorporou novas dimensões relacionadas às transformações do mundo do trabalho.
Essa evolução demonstra uma tendência clara da pesquisa internacional: quanto maior a capacidade de identificar fatores específicos, maior a possibilidade de desenvolver intervenções preventivas eficazes.
Mais informação significa melhor gestão
É natural imaginar que um instrumento com maior número de dimensões seja mais complexo.
Contudo, essa complexidade representa uma vantagem para quem precisa elaborar planos de ação.
Quando a organização identifica exatamente que determinado grupo apresenta:
- elevadas demandas emocionais;
- baixa previsibilidade;
- deficiência de reconhecimento;
- problemas de liderança;
- ocorrência de assédio moral;
as medidas preventivas tornam-se objetivas e direcionadas.
Em contrapartida, quando esses fenômenos aparecem agrupados em poucos indicadores gerais, a empresa sabe que existe um problema, mas não necessariamente compreende sua origem. Como consequência, frequentemente precisa realizar etapas complementares de investigação para identificar os reais fatores de riscos psicossociais, utilizando entrevistas, grupos focais, entre outras ações. Isso aumenta o tempo, o custo e a complexidade do diagnóstico, além de retardar a implementação das medidas preventivas necessárias.
Qual instrumento responde melhor às necessidades da NR-1?
A NR-1 exige que a organização seja capaz de identificar, avaliar e gerenciar os fatores de riscos psicossociais.
Isso pressupõe conhecer, com razoável precisão:
- quais fatores estão presentes;
- onde eles ocorrem;
- sua intensidade;
- quais grupos estão expostos;
- quais medidas devem ser implementadas;
- como monitorar posteriormente sua eficácia.
Sob essa perspectiva, instrumentos com maior detalhamento oferecem vantagens importantes para a gestão dos riscos.
Embora o HSE Indicator Tool continue sendo uma excelente ferramenta para avaliação dos fatores relacionados ao estresse ocupacional, sua estrutura baseada em apenas seis grandes domínios pode limitar a identificação específica de diversos fatores psicossociais relevantes.
Já o COPSOQ II e o COPSOQ III, ao avaliarem separadamente um conjunto significativamente mais amplo de dimensões, proporcionam uma visão mais completa do ambiente psicossocial e oferecem maior suporte para a elaboração de planos de ação específicos.
Conclusão
Não se trata de afirmar que um instrumento seja “melhor” em termos absolutos. Ambos possuem qualidade científica e são amplamente reconhecidos.
A diferença está na finalidade.
Para avaliações focadas exclusivamente na gestão do estresse relacionado ao trabalho, o HSE Indicator Tool continua sendo uma referência importante.
Entretanto, quando o objetivo é realizar uma gestão abrangente dos fatores de riscos psicossociais, como exige atualmente a NR-1, instrumentos multidimensionais, como o COPSOQ II e o COPSOQ III, apresentam uma capacidade diagnóstica superior. Ao identificar cada fator de forma individualizada, eles reduzem o risco de mascaramento de problemas específicos, aumentam a precisão das análises e fornecem informações mais consistentes para a definição de medidas preventivas efetivas.
Em gestão de riscos psicossociais, a qualidade das decisões depende diretamente da qualidade do diagnóstico. E, nesse aspecto, quanto mais específico for o diagnóstico, maiores serão as possibilidades de prevenção e promoção de ambientes de trabalho saudáveis.
Independentemente da metodologia, o mais importante é transformar o diagnóstico em ação
Independentemente da metodologia escolhida — seja o HSE Indicator Tool, o COPSOQ, ou outro instrumento cientificamente validado — o verdadeiro desafio não está apenas na aplicação do questionário, mas na gestão das informações produzidas.
A identificação dos fatores de riscos psicossociais representa apenas a primeira etapa de um processo que deve envolver interpretação dos resultados, elaboração de planos de ação, implementação de medidas preventivas e monitoramento contínuo da sua eficácia, conforme preconiza a própria NR-1.
Nesse contexto, o Data Analyzer foi desenvolvido para apoiar organizações em todas essas etapas. A plataforma permite a aplicação de diferentes metodologias de avaliação (COPSOQ, HSE-IT, PROART, entre outras), o processamento automatizado dos resultados, a emissão de relatórios técnicos, a análise por empresas, estabelecimentos, setores, unidades de traabalho, tomadores de serviços e postos de trabalho ou agrupamentos personalizados, além de auxiliar na elaboração de planos de ação e do acompanhamento da evolução dos indicadores ao longo do tempo.
Mais do que uma plataforma para aplicação de questionários, o Data Analyzer foi concebido como uma ferramenta de gestão dos fatores de riscos psicossociais, possibilitando que empresas, profissionais de SST, ergonomistas e equipes de RH transformem dados em decisões e cumpram, de forma estruturada e baseada em evidências, as exigências da NR-1.
Porque, ao final, mais importante do que escolher um instrumento é garantir que os resultados sejam efetivamente utilizados para construir ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e psicologicamente sustentáveis.
Sobre o Autor:
Odair Fantoni é Jornalista, Especialista Pós-graduado em Direito do Trabalho e em Ergonomia, Membro do COPSOQ Internacional para o Brasil, Executivo de Recursos Humanos com atuação em empresas de diversos portes e segmentos, como: Editora Abril, IPL Informática, Construtora Rodrigues Lima, entre outras. Como consultor em Gestão de Pessoas, Sistemas de RH, eSocial e Fatores de Riscos Psicossociais, auxiliou e continua auxiliando centenas de empresas, tais como: Grupo O Estado de São Paulo, Real Hospital Português (Recife-PE), Hospital Santa Catarina, Hospital Albert Einstein, entre outras. Autor do livro eSocial Fácil: Implantação Consciente, Coautor do livro eSocial: Origens e Conceitos – A Visão de seus Construtores e Coorganizador, em conjunto com Luiz Antonio Medeiros de Araujo, e coautor do livro Riscos Psicossociais no Trabalho: Gestão, Saúde Mental e os Desafios da Nova NR-1, através da ABF Gente & Gestão, desenvolve atividades de consultoria relacionadas ao eSocial, SST, acompanhamento e gestão dos afastamentos, com foco na redução do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e avaliação de fatores de riscos psicossociais. Já, em relação ao eSocial, capacitou mais de 6 mil profissionais e 1,2 mil empresas.
